Conversas entre mãe e filho #13

Cenário 
Estou a falar com o António, a tentar "arrancar-lhe" qualquer coisa do que se passou no seu dia.
Ele distrai-se com o mais pequeno movimento (até com as migalhas em cima da mesa!) e tenho que insistir várias vezes até conseguir obter uma ou duas frases conclusivas.

"- E mais António, o que é que fizeram mais?
 - .....
 - António? Estás a ouvir-me?" 

Ele olha para o infinito, às tantas sai-se com esta:

 "- Na cuasse da Madame Muriel há uma munina muto bunita.
  - Ai é?
  - Sim. Paece uma pincesa.
  - Ai é? E como é que ela é?
  - Como uma pincesa.
  - Mas como é que ela é?
  - É bunita. Chama-se Sofia."

Eu bem tentei aprofundar mais o tema, mas a conversa, para ele, já tinha acabado há muito.

As crianças de facto são surpreendentes.
A Madalena que repara tanto em tudo na vida e no mundo que a rodeia, nunca alguma vez expressou o seu agrado ou comentou a beleza de alguém. Apreciar uma flor, um quadro, ou qualquer outro objecto é comum a Madalena fazer, mas a beleza de alguém, nunca ela antes o fez.
Já o António, que parece menos atento aos pormenores do mundo em geral, não conseguiu ficar indiferente à beleza da sua "copine"! Espectacular, a natureza do ser humano.

Entretanto, o António já me mostrou quem é a Sofia e ele tem razão "paece uma pincesa".