Cruzei-me no outro dia com este artigo no Observador.
São histórias simples de três casais já com com 50 anos de casados.
As histórias não têm nenhuma revelação excepcional, nem dão dicas e conselhos milagrosos para um casamento duradouro, são pura e simplesmente histórias de uma vida real entre duas pessoas.
Para manter um amor, há que saber cuidar.
Há pessoas que nunca na vida encontraram o seu grande amor ou, outras até, que o encontraram, mas não o souberam cuidar.
Cuidar dá trabalho e há quem não esteja para isso.
Lembro-me, quando tinha para aí uns vinte anos, de ter almoçado com a minha amiga Maria Inês, namorávamos ambas há pouco tempo com os nossos actuais grandes amores e de ter calhado em conversa ela dizer-me:
"Toda a gente de vez em quando na vida quer estar ao lado de um Brad Pitt ou ir jantar com um Kelly Slater, ok, no problem, é legítimo. É bom saber apreciar, mas, se viveres com uma pessoa que realmente é espectacular e que tu pensas que de facto é o teu mais que tudo, então quando esse tal Kelly Slater, te quiser dar a mão, tu cruzas os dedos e dizes vai de retro Satanás"- dizia ela no final, em tom de piada.
Na altura pareceu-me que ela exagerava, mas, com o passar dos anos, vejo que este pensamento é de uma tal clarividência emocional, que ainda hoje, por isso, perdura na minha memória.
Sim, é um pensamento de uma clarividência emocional superior quando se tem apenas vinte anos, porque há muitos que nem aos 50 anos conseguem ter esta clarividência e continuam a saltar de flirt em flirt como se isso lhes pudesse trazer algo de realmente bom ao seu coração e alma.
Num amor, há sempre altos e baixos, é normal entre duas pessoas isso acontecer.
Para mim quando me dizem: "Ah, são um casal espectacular, nunca, nunca se chateiam, estão sempre bem e contentes..." é uma coisa que não me diz rigorosamente nada, ou por outra até me diz. Diz-me que um deles provavelmente está retraído, sem mostrar o que realmente gosta, espelhando-se somente na felicidade do outro.
Dois seres humanos com vontades, gostos e personalidades distintas têm que obrigatoriamente, por vezes, não estarem de acordo e se por acaso calha estarem mais cansados ou já terem acumulado uma ou outra coisa, acaba por haver um "tête à tête" mais feroz, and so what?
Quando assim é, há que dar espaço, para poder arejar as cabeças.
Ar fresco entre duas pessoas também faz muito bem!
"Olha, vai ali dar uma volta a ver se eu estou na esquina!" e quando voltamos está tudo melhor.
E se não estiver tudo melhor, paramos para reflectir, falamos e por vezes cedemos.
Por que se acreditamos nesse grande amor e se achamos que vale tanto a pena assim a vida a dois, é também preciso saber ceder.
Para ter um grande amor, não é só preciso encontrá-lo é preciso fundamentalmente cuidá-lo, mimá-lo.
(No caso de não ser um grande amor, então, amigo não empata amigo, o melhor é cada um seguir o seu rumo, no hard feelings. Porque isto de continuar juntos só porque dá jeito, ah, porque é os filhos, ah, porque é o negócio de família, ah porque é isto, ah porque é aquilo, acaba por correr mal, ou pelo menos acaba por trazer muita infelicidade para ambos)
5 comentários:
Muito profundo...é mesmo assim!
Bjs
AF
Os desenhos são lindíssimos.
Bjs
Anabela
Para decidir ficar ou partir, é necessário a lucidez de perceber quando uma relação chegou ao fim, ou quando vale ainda a pena lutar por ela - já que nem sempre o preciso ponto geográfico em que as fronteiras ultrapassadas se constituem como limites irreversíveis.
Trabalhar essa lucidez requer a destemor de nos olharmos honestamente por dentro - o que é difícil.
E, depois, a coragem para concretizar no quotidiano essas decisões.
Fidelidade é uma questão de renúncia. Um lugar onde se fica mais rico.
Para decidir ficar ou partir, é necessário a lucidez de perceber quando uma relação chegou ao fim, ou quando vale ainda a pena lutar por ela - já que nem sempre o preciso ponto geográfico em que as fronteiras ultrapassadas se constituem como limites irreversíveis se sobrepõem.
Trabalhar essa lucidez requer a destemor de nos olharmos honestamente por dentro - o que é difícil.
E, depois, a coragem para concretizar no quotidiano essas decisões.
Fidelidade é uma questão de renúncia. Um lugar onde se fica mais rico.
Emocionante estas histórias de vida.
A relação de duas pessoas que se amam é como uma paleta de cores em que a cores alegria, tristeza, choro, riso, gargalhada,ciúme, enfim, são estas as cores que compõe o quadro mais original que merece a pena ser adquirido por qualquer casal.
"...ambas à pouco tempo..."
É "há" :)
Enviar um comentário