Avó

Há uns dias atrás, fez um ano, que estive a última vez com a minha avó Emília.
Nessa altura, ela já não andava. O seu corpo era muito menos de metade de como sempre a conheci, estava curvada, não aguentava o tronco direito, o seu cabelo era já muito pouco e o seu olhar dizia-me que já não era a minha avó, aquela que eu sempre conheci, que habitava aquele corpo doente.
Tinha um olhar fugidio, perdido, mas ainda brilhante, mas penso que este brilho se devia tão somente à razão de nos ter por perto mais uma vez.
Nessa última vez, falámos dos mais variados temas da nossa sociedade, como ela tanto gostava. Futebol, política, das "marquesas", como ela lhes chamava enquanto folheávamos a "Caras", economia, do mundo em geral. Mas ela já não se entusiasmava como dantes.
Olhava-nos apenas contente, mas sem acrescentar muito mais à conversa.

A minha avó era das pessoas mais informadas que eu conhecia. Passava o dia (e a noite também!) a ouvir rádio e sabia sempre o que se passava em Portugal e no mundo. Lembro-me que, na minha adolescência, antes de sair de casa para a escola, passava pelo seu quarto para lhe dar um beijo de despedida e ela não me deixava sair, sem antes me contar todas as notícias frescas daquela manhã. Mais tarde continuou sempre a surpreender-me com as informações e indicações que sabia e que às vezes recolhia propositadamente por saber que me agradariam, como da vez, em que eu estava de férias no Algarve com o meu amor maior e ela me aconselhou, sabendo como eu gostava tanto de pintura, a não perder a grande exposição do Pablo Picasso, que estava em Portimão por aquela data.


Naquele último dia, fiz-lhe ainda alguns dos poucos mimos que lhe podia fazer.
Em conjunto com a Madalena cortámos-lhe o cabelo e arranjámos-lhe as unhas, para ela se sentir melhor, mais confortável, e porque ela sempre gostou tanto destes pequenos mimos.
Quando nos despedimos pensei que ainda a iria ver mais uma vez, porque ela já tinha resistido tanto...
Mas ela despediu-se de nós sem perceber que iríamos estar, outra vez, mais um grande intervalo de tempo sem nos vermos. Despediu-se como se fosse apenas um até amanhã e se calhar foi melhor assim para ela.

A minha avó nunca foi uma mulher lamechas, nem chorona, sempre foi muito forte, mas, por coincidência ou não, desde que saímos de Portugal e desde que ela ficou mais doente, tornou-se mais sensível e emocionava-se mais facilmente. Quando partimos para Bruxelas pela primeira vez, ao despedirmo-nos dela, lembro-me que o António dormia nos meus braços e ela pediu-me para o pegar. Ficou com ele assim, longamente, como que a decorá-lo, numa despedida silenciosa, mas tão intensa e emotiva.

Lembro-me muito da minha avó.
No dia-a-dia, em coisas pequeninas. 
Vêm-me muitas vezes à cabeça, coisas que ela me dizia.
Agora, com a minha pequena Maria tão atenta a tudo e a aprender tanta coisa a cada dia que passa, lembro-me muito das brincadeiras que a minha avó fazia e ensinava à Madalena e ao António. Tão pouco tempo que desfrutou deles e tanta coisa que lhes ensinou.
Daquelas coisas pequeninas, com graça e também outras maiores, como quase pôr o António a andar, como ela tão felizmente repetia.

Lembro-me muito dela, porque é uma grande fonte de inspiração para mim. 
Era muito forte a minha avó.
Sabia transmitir força e confiança a toda a família, quando as coisas iam menos bem.

Lembro-me muito dela, mas, a vida é mesmo assim, um ciclo, e é bom eu ter guardadas tantas coisas dela dentro de mim.

3 comentários:

Catarina disse...

Olá rita!como sempre escreves de forma muito sincera e cheia de. emoção .. Ao ler fui me lembrando da minha própria avó ..acho que elas vão permanecendo vivas com essas nossas lembranças e pequenos momentos.. Beijinhos grandes

Anónimo disse...

Vamos lá ver se o meu comentário (poema) cabe. Aguém escreveu este poema, um dos mais bonitos que já li e que me toca muito. Este poema, para mim, carateriza muito bem as mães e claro as avós.
E para uma super mãe como tu...cá vai...
Uma criança pronta para nascer, perguntou a Deus:
- Senhor, dizem que amanhã descerei para a Terra , mas como irei lá viver, tão pequena e indefesa?
E Deus respondeu:
- Entre muitos anjos, eu escolhi um muito especial para ti. Esse Anjo já está à tua espera e vai tomar conta de ti.
A criança, curiosa, continuou:
- Mas, diz-me uma coisa, Senhor, aqui no céu eu não faço nada, a não ser cantar e sorrir, o que é suficiente para que eu seja feliz...como será lá na Terra?
E Deus, pacientemente respondeu:
- O teu Anjo vai cantar e sorrir para ti. A cada dia, a cada instante, tu vais sentir o amor do teu Anjo e vais ser feliz.
A criança continuou:
- E como vou perceber, quando falarem comigo? Eu não conheço a língua que as pessoas falam na Terra
E Deus respondeu:
- Com muita paciência e carinho, o teu Anjo vai-te ensinar a falar.
A criança quis saber mais:
- Senhor, quando eu quiser falar contigo, o que faço?
Deus disse:
- O teu Anjo vai juntar as tuas mãos e vai-te ensinar a rezar.
A criança, preocupada, perguntou também:
- Eu ouvi dizer que na Terra existem homens maus. Quem me vai proteger dos perigos?
Deus, então, respondeu:
- O teu Anjo vai-te defender, mesmo que para isso tenha que arriscar a própria vida.
Nesse momento, havia muita paz no Céu, mas, as vozes da
Terra já começavam a ser ouvidas.
A criança, apressada, pediu carinhosamente a Deus:
- Oh, Deus! Se eu este é o momento de ir para a Terra, por favor, diga-me...qual o nome do meu Anjo?
E Deus respondeu:
- O Teu anjo chama-se : MÃE !

Anabela

Anónimo disse...

Curiosamente, só agora reparei na data, 3 de setembro.
O meu anjo, se estivesse na Terra, faria 66 anos.

Bjs
Anabela